Reparar
o que está avariado ou danificado
Reparar: mais um passo para evitar o desperdício
Reparar já foi a primeira opção
Antigamente, no tempo dos nossos avós, era impensável deitar-se algo fora apenas porque estava avariado ou danificado.
O que se fazia era sempre procurar uma solução para reparar e fazer durar muito mais tempo.
As costureiras, os sapateiros e as lojas de reparação em geral tinham sempre muito que fazer.
Reparar deveria continuar a ser sempre a nossa primeira opção, no entanto, por vezes, parece-nos difícil de o conseguir fazer ou até acaba por sair mais caro reparar do que comprar novo.
A sociedade moderna de consumo
Para reduzir a nossa pegada ecológica é fundamental consumirmos menos, optando por uma vida mais simples e mais minimalista.
Isto não significa que devemos deitar tudo fora, deixar de comprar coisas ou prescindir das coisas que nos são úteis e que simplificam o nosso dia-a-dia.
Uma vida mais simples e minimalista passa por fazer escolhas mais conscientes, percebendo o que realmente nos faz falta e optando por produtos mais duradouros e que, de preferência, sirvam para vários propósitos.
No entanto, independentemente da qualidade dos produtos que adquirimos, com o uso e com o desgaste, estes provavelmente vão acabar por se danificar ou avariar.
Hoje em dia, com a facilidade que temos em encontrar novos produtos a “bons preços”, existe uma grande tendência para deitar fora o que se avaria e substituir por um novo produto. Grande parte dos produtos são descartados desnecessariamente.
Ainda mais quando a sociedade moderna nos leva a crer que ter de comprar novo é normal ou até “recomendável”, porque o novo produto é que segue as novas tendências, faz mais “x” ou “y” ou que a versão que temos pura e simplesmente se encontra obsoleta.
Quando falamos acerca de bens tecnológicos ou aparelhos electrónicos, é ainda mais desafiante, pois muitas vezes estes já vêm com um “prazo de validade”, avariando ao final de um determinado periodo de tempo sem razão aparente e sem que exista uma real possibilidade de reparação. Estamos a falar de Obsolescência Programada.

O que é a obsolescência programada?
A obsolescência programada não é uma teoria da conspiração.
Já todos ouvimos dizer que antigamente os produtos duravam mais tempo.
Hoje em dia já não é bem assim e isto deve-se à obsolescência programada.
A obsolescência programada consiste na redução deliberada do ciclo de vida útil de um produto, forçando o consumidor a substituí-lo. Desta forma incentiva-se o consumo contínuo, aumentando a frequência de compra por cada consumidor, gerando um ciclo vicioso.
É com base nesta que os produtos são fabricados com materiais de baixa qualidade e que os fabricantes não disponibilizam serviços de reparação, peças suplentes para que possamos substituir as que se avariam ou muitas vezes sai mais caro reparar do que comprar um novo produto.
É também com base nesta que somos levados a comprar mais e mais roupas, sapatos e acessórios de que não precisamos, para estarmos dentro das novas tendências.
Esta prática é muito frequente numa enorme variedade de produtos: telemóveis, computadores, impressoras, electrodomésticos em geral e até na roupa, sapatos e acessórios de moda.
Nem sempre foi assim…
Desde 1901 que uma lâmpada permanece acesa, continuamente, no quartel dos bombeiros de Livermore, Califórnia. Desde então, o maior período de tempo que esteve desligada foi de apenas uma semana. Esta lâmpada foi inventada por Adolphe Chaillet, com o propósito de durar para sempre.
Porque têm as lâmpadas um limite de horas?
Em 1924, um grupo composto pelos maiores produtores de lâmpadas a nível mundial (Cartel Phoebus) reuniu-se secretamente, com o objectivo de traçar metas para fazer crescer o seu negócio.
Na altura as lâmpadas já se tinham disseminado na população e o seu tempo de vida útil poderia ir das 1500 às 2500 horas de iluminação.
Este grupo chegou à conclusão de que seria vantajoso para todos se as lâmpadas tivessem de ser trocadas frequentemente. Assim, limitaram o tempo de vida útil de uma lâmpada às 1000 horas de utilização.
Este grupo definiu novas regras na produção, tornando as lâmpadas mais frágeis e o seu desgaste mais rápido, tornando as 1000 horas de utilização, um padrão nesta indústria, aceite por todos e não questionado por ninguém. [1]
O termo obsolescência programada surgiu durante a Grande Depressão, em 1929. Bernard London, um corretor de imóveis em Nova Iorque, sugeriu que todos os produtos deveriam ter um prazo de final de vida associado, após o qual seriam descartados.
Acreditava que uma das causas da Grande Depressão teria sido a produção de bens ter-se tornado superior à demanda, como resultado da Revolução Industrial.
Afirmava que, através da obsolescência programada, os empregos seriam repostos e o mercado permaneceria em permanente movimento, sem altos e baixos, ficando os cidadãos obrigados a consumir de forma regular. Esta ideia era demasiado agressiva e não seguiu para a frente, mas outras estratégias semelhantes foram postas em prática.[1]
Tipos de obsolescência programada
Existem 2 principais tipos de obsolescência.
Obsolescência técnica ou objectiva: Centra-se nas características físicas do produto, para que ele se torne inutilizável num período de tempo programado. Este tipo de obsolescência é comum em electrodomésticos e outros aparelhos.
Obsolescência percebida ou subjectiva: O consumidor percebe que o produto é obsoleto mesmo se útil, devido a uma alteração no design ou no estilo. O objeto torna-se menos desejável, mesmo que seja funcional, porque não segue as tendências da moda. Aplica-se sobretudo no mundo da moda: roupas, sapatos e acessórios, mas também se encontra na tecnologia, em telemóveis, por exemplo.
Impacto da obsolescência programada e da não reparação dos produtos
Este propositado curto ciclo de vida dos produtos que consumimos actualmente tem graves consequências ambientais e sociais:
Gera um enorme desperdício de recursos naturais
O consumo acelerado leva ao esgotamento de matérias não renováveis.
Elevada produção de resíduos
Provoca graves problemas de contaminação dos solos, uma vez que muitas vezes os resíduos não são descartados correctamente e são altamente poluentes (sobretudo quando falamos de resíduos electrónicos). Segundo a ONU, em 2019 foram produzidas 53,6 milhões de toneladas de lixo eletrónico, numa média de 7,3Kg de lixo electrónico por pessoa. Apenas 17,4% dessa enorme quantidade de lixo electrónico foi reciclada. [2]
Elevadas emissões de gases com efeito de estufa
Associadas à produção e ao transporte de matérias-primas, de produtos acabados e até dos seus resíduos após descarte.
Envio dos resíduos para países em desenvolvimento
Países como o Gana estão a tornar-se a lixeira electrónica dos países desenvolvidos. Periodicamente, centenas de contentores chegam cheios de resíduos com o rótulo de “materias em segunda mão” para, eventualmente, serem despejados em rios ou campos onde crianças brincam. [3]
Desigualdades sociais
Para apresentar constantemente novos produtos e aos preços mais baixos, as empresas recorrem a mão-de-obra barata, pagando de forma injusta aos seus trabalhadores que na grande maioria dos casos se encontram em países em desenvolvimento, cujas leis não protegem os seus direitos.
Benefícios do consumo de produtos feitos para durar
Consumir produtos duradouros e reparar quando se avariam ou danificam
Tal como referimos neste artigo, o mais sustentável é aquilo que já existe.
Reparar permite-nos prolongar a vida dos objectos que se danificam ou avariam em vez de os substituir por outros novos.
Desta forma, estamos a reduzir as nossas emissões, a reduzir o nosso consumo de matérias não renováveis, a produzir muito menos resíduos, a evitar a contaminação dos solos e a não compactuar com a exploração das pessoas que são “escravas” das indústrias.
Ao comprar de forma consciente, optando por produtos mais duradouros e passíveis de serem reparados, vamos ainda poupar dinheiro a médio-longo prazo.

Consumir de forma consciente
O que podemos fazer para evitar os produtos pouco duradouros?
A melhor forma de assegurar que a vida útil de um produto será longa é, antes da compra do produto, procurarmos o máximo de informação, sobre a sua qualidade, sobre a marca que o produz, as condições de reparabilidade da marca e se existem peças de reposição.
Procurar também saber se a marca assegura essa mesma possibilidade de reparação após o período de garantia é essencial.
Apesar de poder parecer mais difícil, isto também se aplica a aparelhos tecnológicos como computadores e telemóveis que têm mostrado diversas limitações a nível da durabilidade do seu hardware (sobretudo das baterias que em muitos casos não podem sequer ser removidas) mas também a nível de software (as actualizações vão acabando por deixar de ser compatíveis com modelos mais antigos).

Exemplos práticos
Optar por software livre, como por exemplo Linux para os desktops e Aplicações Foss para Android, é um excelente ponto de partida para evitar limitações impostas pelos fabricantes.
Optar por equipamentos feitos com materiais mais sustentáveis e/ou com grande qualidade e nos quais seja fácil a reparação e substituição de componentes é uma óptima solução, como é o exemplo do Fairphone, um telemóvel sustentável, produzido com materiais reciclados e cujas peças de reposição são comercializadas pela marca e fáceis de substituir: podemos ser nós próprios a fazê-lo, apenas com uma pequena chave fornecedida pela marca.
Ao nível dos electrodomésticos, antes de adquirires, consulta o website da marca ou procura saber mais sobre como funcionam os seus serviços de assistência técnica. Hoje em dia, diversas marcas conhecidas apresentam as suas políticas de reparabilidade nos seus websites, local onde também encontras à venda diversas peças de substituição. Alguns exemplos são marcas como a Tefal, a Moulinex ou a Krups.
Quando falamos de vestuário, é importante comprarmos menos roupa, mas que seja de qualidade.
As lojas de “Fast Fashion” não são de todo o local que procuramos, comercializando roupa, calçado e acessórios muito pouco duradouros.
Optar por peças feitas com propósito, com garantia da sua qualidade é meio caminho andado para que durem muito mais.
Para além disso, é essencial fazer uma boa manutenção das peças, menos lavagens e, claro, ir reparando quando se danificam. Uma agulha, uma linha e um pouco de imaginação podem fazer maravilhas.
Se não tens jeito para a costura, procura uma costureira ou um sapateiro perto de ti que o possa fazer. Normalmente estes serviços não são muito dispendiosos e os resultados são quase sempre surpreendentes. Para além disso, estarás a apoiar pequenos negócios locais.

Repair Cafe ou Café Conserto
Já ouviste falar sobre este conceito?
O conceito de Repair Cafe nasceu na Holanda e hoje existe em diversas cidades no mundo.
Tem como objectivo a reparação, em conjunto, de eletrodomésticos, brinquedos, roupas, etc. que estavam destinados ao lixo, mostrando às pessoas que de cada vez que algo se danifica ou avaria, não precisa necessariamente de ser deitado fora.
As pessoas levam os seus objectos danificados ou avariados e, juntamente com especialistas (eletricistas, carpinteiros, entre outros), realizam os consertos utilizando ferramentas e materiais disponíveis no local.
Desta forma, é promovida a partilha de conhecimentos, tornando os participantes mais autónomos, conscientes e responsáveis pelo seu impacto, valorizando objectos que seriam deitados fora. Esta valorização pode ser feita através da reparação, conversão ou integração na criação de novos objectos úteis. [4]
Este conceito ainda é pouco explorado em Portugal, existindo apenas uma iniciativa em Lisboa e uma no Porto, organizadas com o suporte da Circular Economy Portugal, do Fablab de Lisboa e do OPO’Lab no Porto. Sabe mais aqui.
No repaircafe.org podes saber mais sobre este conceito e conhecer as diversas iniciativas que existem pelo mundo.
Boas notícias de 2022!
2022 começa com a entrada em vigor de novas regras dos direitos dos consumidores. Uma lei renovada aumenta garantias e prazo de vida dos bens móveis e imóveis. Pela primeira vez, prevê direitos no fornecimento de conteúdos e serviços digitais.
Transpondo diretivas europeias, a nova legislação aumenta o grau de proteção do consumidor nos contratos de compra e venda de bens e no fornecimento de conteúdos e serviços digitais. Desta forma, Portugal fica mais próximo da lei já em vigor em muitos Estados-Membros da União Europeia, harmonizando-a.
Garantia passa para 3 anos
Com a mudança de ano, os produtos adquiridos têm alargado o seu prazo de garantia para 3 anos. Até ao momento, era de 2 anos. Adicionalmente, com a nova legislação, nos 2 primeiros anos, o consumidor deixa de ter de comprovar que o defeito existia aquando da entrega do bem.
Se comprar um produto recondicionado também se aplicam os 3 anos de garantia e se for um artigo em segunda mão ou usado passam a 18 meses.
Prolongamento da vida dos produtos
O prolongamento da vida dos produtos, em defesa do consumo sustentável, também está prevista. Desde logo, fica legislada a obrigação de disponibilizar peças sobresselentes pelo período de 10 anos. Além disso, há um dever de assistência durante uma década em automóveis, motas e barcos, ou seja, bens que necessitam de registo.
Se o consumidor optar por reparar o bem adquirido, terá um prazo de garantia adicional de 6 meses. Segundo a própria legislação, o prazo para a reparação ou substituição não deve exceder os 30 dias.
Maior exigência com o produto vendido
Com esta legislação, aumenta o nível de exigência dos produtos, alargando critérios objetivos e subjetivos. Por exemplo, em situação de “falta de conformidade” entre o prometido e o adquirido, o consumidor pode exigir a sua reparação ou a substituição. E se a falha se mantiver, pode obter uma redução do preço ou cancelar a venda (resolução do contrato se for um serviço).
Esses direitos são também transferidos para quem adquira em segundo mão o bem móvel, ou a quem seja usufrutuário de forma gratuita. [5]
No Decreto Lei nº84/2021 de 18 de Outubro podes consultar todas as alterações.

Toca a reparar!
O ritmo frenético que a sociedade moderna nos impõe, leva-nos muitas vezes a não tomar as melhores decisões, seja para o ambiente, seja para a nossa carteira.
É cada vez mais fundamental abrandarmos o ritmo e repensarmos o nosso consumo, bem como a forma como cuidamos daquilo que já temos.
Comprar de forma mais consciente e assegurar um ciclo de vida útil dos produtos mais longo, vai trazer-nos inúmeros benefícios e ao planeta também.
Procurar soluções alternativas ao descarte de um produto vai fazer com que os recursos gastos na sua produção tenham mais sentido. Lembra-te que, por mais ecológico que um produto seja, existe sempre um gasto de recursos e esses recursos não são ilimitados!
Costumas tentar saber mais sobre os produtos e sobre as marcas antes de comprar? Tens o hábito de reparar? Tens dificuldade em saber como reparar determinados produtos ou em encontrar peças de reposição?
Partilha as tuas experiências de reparação, tira fotos e publica nas redes sociais com a hashtag #EcoDesafio2022 para inspirar outras pessoas!
Referências
[2] https://www.itu.int/en/mediacentre/Pages/pr10-2020-global-ewaste-monitor.aspx
[3]https://www.theuniplanet.com/2011/03/obsolescencia-programada-documentario/
[4] https://repaircafe.org/en/
[5] https://www.e-konomista.pt/direitos-dos-consumidores-novas-regras/














































































Julho: Aromaterapia e Consumo Consciente
Junho: Sustentabilidade e Bem-Estar
Maio: Mercado Circular e Saboaria